sábado, 15 de julho de 2017

O que há por entre as junturas dos ossos?

"Muita ferida posso
quer no amor, quer no ódio,
desatrelo freios, 
monto muito muro divisório.
Construo a ferida como um arco romano
que nem o tempo corrói".
               
                  Entre as junturas dos ossos - Vera Lúcia de Oliveira

Quando eu li este livro, a primeira coisa que eu pensei foi: "PUTZ!", e esta poesia valeu pelo livro todo. Ela me traduz sem igual, sabe por que? Digo, com a cara queimando de vergonha, que sempre fui uma pessoa sensível no sentido mais negativo da palavra. Sempre fui de guardar rancor, de pegar ranço, de sentir recalque... sim, meu caro leitor, isso é reflexo de uma baixa autoestima muito grande, para você ter uma ideia, há meia hora atrás ocultei uma publicação de uma ex colega da universidade que mudou o visual, e obviamente ficou mais linda do que já é. Tudo isto causa o que? Feridas!
Uma chaga emocional por você não se aceitar como deveria, e que por mais que você se olhe no espelho balbuciando a música "Bobagem" da Céu (minha beleza não é efêmera, como que eu vejo em bancas por aí), cantar a plenos pulmões "Born this way" da Lady Gaga com o seu inglês péssimo, nada é o suficiente quando uma nuvem negra paira na sua cabeça para te lembrar que existem pessoas mais bonitas que você (de acordo com os padrões impostos na sociedade), mais inteligentes que você, enfim, um monte de coisas a mais que você.
O que era uma perebinha de nada, sob o sol iluminado de uma bela manhã, ouvindo "Acabou chorare" dos Novos Baianos, segurx da ideia de que você é suficiente em todos os sentidos, muda de figura quando acaba o disco e você resolve colocar Radiohead, e um corte que mina sangue e incerteza surge em você. "Desatrelo freios, monto muito muro divisório", aaaaahhh, se monto muros! Minha especialidade! Se invoco com alguém, se sofro uma desilusão, mesmo que eu faça o esforço de perdoar, na realidade, já estou preparando o concreto para assentar os tijolinhos da minha muralha. E se eu ainda colocasse uma pedra no assunto tava bom... ainda "construo a ferida como um arco romano", conforme a poesia, imortal, incicatrizável. Sou de chafurdar o dedo na lesão, para abrir o ferimento de maneira que ele se torne incurável. E pensa que eu ganho alguma coisa com isso? Ganho bosta!
Me tornei um disco furado contando sempre as mesmas histórias das vezes em que fui traída, e sob o manto de sobrevivente, escondi de mim mesma a hemorragia que esses traumatismos emocionais estavam me causando. E tudo isso não é culpa dessas pessoas que passaram pela minha vida, a culpa, meu caro leitor, é minha! Quanto mais eu chafurdava o dedo na ferida, mais elas criavam camadas e substância por entre as junturas dos ossos. E o que há entre as junturas dos ossos? O peso de sermos quem somos. Essa coisa canastrona que nos tornamos, e ainda iremos nos transformar, em tantas outras figuras dignas de uma boa história de mitologia. Hades ou Fênix? 
A questão é que estamos suscetíveis a nos ferir, mas a forma como lidamos com o fato, é que vai ser determinante para o nosso contentamento com a vida. Estou engatinhando nesta questão, parando de ler coisas que abalam meu psicológico, de ouvir músicas que me remetem ao passado que já passou faz tempo, enfim... eu chego lá. Só sei, meu caro leitor, que se você puder ler, leia! São poesias intimistas, que descrevem este peso de ser, entende? Sabe quando a vida equivale ao peso de um lutador de sumô? Toda esta responsabilidade de existir, de fazer sentido, contido nesses poemas curtos, porém, cheios de significado. Está na minha "wishlist", pois não é uma questão de consumismo, é uma questão de nostalgia, pela época feliz em que eu vivi quando o li. E estas lembranças, meu caro leitor, "nem o tempo corrói".


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