Já teve a sensação de estar dormindo de olho aberto? De ser uma ameba no organismo universal? Um zumbi que desempenha com proatividade a incumbência de ser “o filho exemplar”, ou “o funcionário do mês”, “cidadão correto”, conforme os ditames que esta sociedade nos impõe? E por falar em sociedade, o que dizer dessa sociedade de consumo, que nos enfia goela abaixo informação, entretenimento, produtos, tecnologia, de maneira que simplesmente não conseguimos alcançar a suficiência, não temos tempo de absorvermos o que nos é oferecido, dessa forma, consumimos desenfreadamente sem pararmos para pensar no porquê estamos produzindo toda essa parafernália…
Já parou para se perguntar: será que eu tenho consciência da minha existência, ou sou apenas um robô? Todas essas indagações que eu fiz permearam o meu íntimo durante muito tempo. Já fui uma célula dessa grande organização do sistema que nos aprisiona em vícios, fugas, rótulos impostos que nos tiram a liberdade de sermos quem realmente somos. Quando Ana, personagem do conto, vê o cego mastigando goma na escuridão, reverbera o sentimento de que ela também está mastigando a vida, ou seja, mastigando o tempo que lhe resta, em profunda obscuridade, sem ver substância, consistência na vida em que ela levava.
Agora minhas queridas e queridos, o que vocês estão fazendo com a vida de vocês? Ana dava tudo de si, “sua corrente de vida”, no marasmo que era a sua rotina, sem se dar conta do quanto tudo era insubstancial. Aquela vida de mãe e dona de casa a condicionava entregar toda a sua energia para o bom funcionamento da instituição familiar. O marido satisfeito em ter comida, roupa lavada e casa limpa, os filhos também, sem contar que mais cedo ou mais tarde teriam sua independência e assumiriam o controle de suas vidas. E Ana, quando assumiria o controle de sua vida?
Ao sair do bonde, rumo ao jardim botânico, após o despertar de si própria naquela constatação da mecanização da mastigação do cego, Ana via com intensidade o cerne dos elementos em sua volta. As cores, as camadas, enfim, tudo o que constituía o lugar. Me remeteu a época em que eu passei pela experiência de sinestesia durante quinze dias, e tudo, como diz a música dos Engenheiros do Hawaii: “Tudo ficou tão claro, um intervalo na escuridão…” Estar preso a um curso indesejado, um relacionamento abusivo, um emprego desgastante, faz com que percamos as rédeas da nossa vida, e a consciência do nosso próprio valor. Se você chegou até este ponto exato da leitura, meu caro leitor, é porque, assim como Ana, “você também necessita sentir a raiz firme das coisas”. E viver “abolindo a felicidade”, parafraseando o trecho do conto, é uma forma de vegetar.
Para vocês terem uma noção, lembro-me dos últimos dias de vida do meu pai, embora o que ele tinha fosse grave, a esperança era uma brasa acesa em seu coração. Eu ficava com ele no hospital para ajudá-lo a fazer suas necessidades, servir de companhia, enfim, isso faz 10 anos. Ele me disse: “Ismara, vou fechar a oficina que eu trabalho, tirar habilitação, comprar um fusca e viajar. Eu não vivi nada, só cuidei das responsabilidades, e o que eu ganhei?” Ele não conseguiu realizar seu sonho. Já pensou que triste seria se você, leitor, se visse nesta situação derradeira, e chegando à conclusão que não viveu, só existiu?
A partir do momento que você desperta para si mesmo, você não aceita mais ser fantoche do sistema. Assim como Ana, você sente que o mundo é seu, o modo como você escolhe viver refletirá na maneira que o mundo funcionará pra você. Você tem a escolha de sair da sua própria zona de conforto, e dar uma volta de 180º graus em seus conceitos referentes à maneira como vive. Ana fez a escolha dela, possivelmente colocando na balança tudo o que acarretaria naquela decisão. Mas ela nunca mais foi a mesma. Não vou falar qual foi a decisão, porque não quero dar SPOILER, mas fica o incentivo para você ler o conto, é divino! O meu objetivo, ao trazer esta discussão, foi fazer você pensar acerca da maneira como está vivendo, e todo o tempo é tempo de mudar! Reflita! Não masque a vida na escuridão.

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