Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...
Sombra de névoa tênue e esvaecida
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...
Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...
Sou talvez a visão que alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!
Florbela Espanca
Florbela Espanca me acompanhou nos dias nebulosos de 2015. Dias de incerteza, de tristeza, de um coração despedaçado, enfim, de muitas dúvidas acerca do que viria dali pra frente. Meus caminhos tortos me levaram a um beco sem saída, sofri uma ruptura e daí pude entender que a liberdade não significa um despirocamento total, mas uma vida tomada pela responsabilidade de saber que tudo tem um preço. Hoje acordei com vontade de me desprender de tudo o que me leva a recordar daquela época que já passou, sinto vontade de pegar o rumo de uma estrada sem olhar para trás, mas ao mesmo tempo sinto vontade de me abrir para aquela pessoa que marcou minha vida como ninguém conseguiu marcar. Sinto vontade de arrebentar os grilhões que me prendem, sinto vontade de jogar no vaso sanitário meus medicamentos, sinto vontade de tantas insanidades, mas mantenho a calma e penso: a dor do arrependimento depois é muito maior.
As vezes me pego pensando: será que sou o suficiente para marcar alguém? Quantas pessoas marquei nessa vida? Todos um dia voltam para me dizer o quanto fui importante, o quanto desejaram que tivéssemos dado certo, mas por outro lado, vem os questionamentos advindos de uma mente ainda em transformação, e certas manhãs uma pergunta paira na cabeça: será que é real? Meus amigos dizem para eu tomar cuidado com as verdadeiras intenções, mas algo no meu íntimo me diz que não tem razão alguém se dar ao trabalho de me procurar para voltar atrás diante da atitude ríspida pela qual havia tomado anteriormente. Será que sou tão insuficiente a ponto das pessoas só me procurarem pensando em tirar uma onda com a minha cara? Por isso chego a conclusão, e quero acreditar, mesmo quando os dias estiverem nebulosos, que eu sou o suficientemente incrível para alguém sempre voltar. Independente se este voltar seja apenas um voltar amistoso, um voltar livre de amarras, somente laços afetuosos, de quem só deseja fazer parte da sua vida, por assistir cada caminhar seu, e aplaudir cada linha de chegada que você alcançar.
Não sei qual foi o motivo que levou Florbela a escrever essa poesia. Mas vejo ela nesse momento de inspiração, atravessando um período sombrio, de dúvidas e dor, como este em que eu descrevi acima. Vejo ela pensando nas tantas vezes em que ela tentou transformar cacos de vidro em diamantes, vejo ela tentando pela impetuosidade dela fazer com que as coisas dessem certo, ignorando o fato de que tudo o que envolve um comportamento impetuoso leva a pessoa a ruína... Penso nas vozes que incutiam nela a própria inferioridade, fazendo-a crer que ela não era o suficiente para ser amada por alguém. Vejo ela em busca de rostos, inserida numa multidão, e frustrada em sua procura, pois ninguém reconhece a sua alma.
Ao mesmo tempo que essa poesia faz parte de mim, vejo também que faz parte das pessoas que me cercam, e que a desconhecem... todos estão tão imersos nas próprias frustrações, e não enxergam um palmo de valor existentes em seus interiores. Todos prontos a descreverem suas derrotas, e das vezes que pensam em desistir de tudo... Todos dispostos a mostrarem o quanto são detestáveis, ignorando a necessidade de se olharem de maneira otimista... todos prontos a se chafurdarem na lama, sem dar a chance de se darem uma chance... Tantos filmes, livros, músicas que serviriam para os levarem ao estado de contemplação, mas todos estão ocupados correndo atrás de discutirem o sexo dos anjos, e coisas inúteis. E todos tão adormecidos em sua própria realidade, que não suportam a claridade do que a verdade tem a lhes mostrar. Se eu mostrasse essa poesia a esta pessoa, com certeza concordariam no quanto ela descreve sua realidade.
Mas fico pensando se a vida é suficientemente grande e resistente para carregarmos dor em sua bagagem... será que não perderíamos a paisagem da estrada que estamos trilhando, ocupados em contar os pedregulhos que tropeçamos? Hoje senti essa vontade de desocupar o bagageiro do meu coração para dar vazão as coisas boas que a vida tem para me oferecer. Eu sinto que já não sou mais a doença, já não sou mais as limitações, já não sou mais as fraquezas que me apontam, já não sou mais as incertezas que me plantam, já não sou mais o construto que os outros fizeram de mim! É hora de rejuvenescer, fazer um curso, fazer planos, fazer novas amizades, estar em busca de sempre melhorar, e acima de tudo, enxergar sempre o melhor que existe em mim! É chegada a hora de me dar a chance de respirar novos ares, de ver o mar, ou enfrentar selvas de pedra, e enxergar tudo sob as lentes de uma câmera fotográfica. Sinto vontade de alçar vôos, com a responsabilidade de quem vive por si mesmo. É chegada a hora, e saibam que o que deixei para trás foram pesos que não vejo necessidade alguma de carregá-los novamente.

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