quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Ifemelu, musa da minha fronteira


Quando vivi a ruptura em 2015, decidi tirar o atraso de leituras. Descobri muuuuita gente bacana, e foi determinante pois eu quebrei meu preconceito literário acerca das mulheres na literatura... E comecei com Chimamanda, entrando na hype do Americanah. Confesso que estava louca para ler este livro, porque a minha experiência com a literatura africana foi marcada pelo ilustre Chinua Achebe, e seu livro "A flecha de Deus", que tive o prazer de ler na universidade. Mano, que experiência incrível! A partir dali, tenho escritores africanos em alta estima, ou seja, ao descobrir Chimamanda, mal pude conter a expectativa em lê-la!!! 
O fato dela ser feminista só ganhou um peso real pra mim em 2016, pois em 2015 eu não me via lutando por algo que seria benéfico para mim mesma, embora eu tivesse motivo o suficiente para repensar meu posicionamento. Ainda tinha muito preconceito com feministas, e eu praticamente ignorei a militância de Chimamanda. Mas os resquícios dessa luta permaneceram no meu íntimo durante muito tempo, depois de ter lido vários outros livros após Americanah. Todo o construto de Ifemelu como mulher e como militante ficou muito marcado, sem contar as situações que foram determinantes para este construto que eu muitas vezes também vivi... 
E algo que me marcou muito nessa história, foi a aceitação dela enquanto negra... Logo no ínicio da história, vemos ela indo em direção à um salão de cabeleireiro especializado em cabelos afros, e a profissional insiste para que ela alisasse seus cabelos, e Ifemelu determinada diz que gosta do seu cabelo do jeito que é. Isso ficou muito marcado, e achei muito bonito da parte de Chimamanda descrever uma personagem tão fiel as suas origens, porque nesta sociedade eurocêntrica, beleza é sinônimo de traços da branquitude, logo vemos desde muito cedo crianças sofrendo com o preconceito com a sua pele, com o seu cabelo, e as imposições de pessoas que não aceitam a diversidade de etnias e desejam padronizar a estética, de acordo com o seus respectivos sensos estéticos, que é guiado por ditames racistas. A medida que o sujeito cresce, mais ele está emaranhado por estas imposições, e mais ele crê que a sua beleza é inaceitável perante a sociedade.
Não que seja errado alisar o cabelo, mas muitas fazem isso com a inclinação errada, somente para ser aceita perante a sociedade, quando é a própria sociedade que na verdade está equivocada diante de seus preceitos, pois submetem negros, sobretudo negras a seguirem o tal senso estético padronizado para serem aceitas numa vaga de emprego, para frequentarem determinado lugar, para não receberem olhos tortos, e tantas outras injustiças que segregam estas pessoas da sociedade em que estamos inseridas. Como aconteceu com a tia de Ifemelu, para conseguir a vaga no hospital, precisou desmanchar suas tranças afro, alegando que era necessário se adequar as normas daquele lugar onde ela estava lutando para conseguir um espaço. A QUESTÃO É: VOCÊ PODE, TANTO SER LISA, QUANTO SER CRESPA, DESDE QUE VOCÊ ESTEJA BEM CONSIGO MESMA. NO MUNDO DOS SONHOS, VEMOS CRESPAS SE LIBERTANDO DOS DITAMES ESTÉTICOS, MAS NA VIDA REAL, AINDA É ARCAICO O TRATAMENTO QUE ELAS RECEBEM DE SUA BELEZA NATURAL. 
Temos muito o que caminhar, o que aprender, assumir sua beleza natural vai muito além de estar na moda, é uma questão de aceitar suas origens, de aceitar a si mesmo, de lutar para que outras pessoas envoltas nas imposições dos padrões de beleza se sintam motivadas a fazerem o mesmo... E temos o exemplo claro de Ifemelu, que lutou muito para chegar a mentalidade que ela chegou, e vemos no decorrer da leitura tantos desafios que ela enfrentou para se tornar a musa da nossa fronteira! Questões raciais, questões de gênero, aceitação das origens, tudo isto torna a narrativa carregada de conhecimento e oportunidade para nos transformarmos em seres humanos empáticos diante da luta que é se aceitar num mundo tão ditatorial como este. Vamos aprender com Ifemelu a nos tornarmos seres transformadores e cheios de saberes!


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